Mochilão

Aquele do acampamento

Mesmo me livrando de vários itens da mochila (deixados de presente para nossa primeira anfitriã), ela continuava pesando como um filhote de elefante. Por isso, fiquei bem satisfeita quando, ao sairmos de Barra Del Chuy na tarde do segundo dia, rumamos para a estrada e logo conseguimos uma carona. Foi a primeira motoristA que parou. Ela nos deixou na rota 9 (aquela da Aduana) e seguiu para o Chuí. Ali estacionamos nossas coisas e nos preparamos para pedir carona até nosso segundo destino: o Parque Nacional de Santa Teresa.

Parque Nacional de Santa Teresa. Vista do El Chorro. Foto: Júlia da Motta.

 Depois que alguns carros passaram e não pararam, nos demos conta que não tínhamos um plano B. Nem celular (e para quem ligar?). Nem internet, pra ver se existia algum ônibus. Nem ninguém para perguntar, pois a estrada estava deserta. Totalmente sem opção de ir a pé, uma vez que estavámos a uns bons 40km. Acho que acreditamos demais na nossa sorte em conseguir carona, mas depois de uns 40min – quando o desespero ja começava a bater -, ela realmente apareceu.

Quando um cara finalmente parou, juntamos nossas coisas e saímos correndo, com medo que ele mudasse de ideia e arrancasse. Além de descer pra ajudar com minha mochila, ele ainda percorreu 10km a mais do seu caminho para nos largar na entrada do parque. Mas quando descemos, me dei conta que tinha esquecido algo. Eu e a Rafa compramos comida e dividimos o peso pra carregar. Na pressa de pegar a carona, devo ter deixado a minha sacola (com metade da comida do acampamento) na placa onde estávamos esperando. Burrice 1 x Júlia 0.

A entrada do parque de Santa Teresa é gratuita, mas é preciso se registrar para entrar. O parque tem uns 3 mil hectares, entre trilhas, uma fortaleza, mini zoo, áreas para piquenique. Além disso, é cercado por praias. Acampando estávamos mais perto da Playa de La Moza, a maior delas. Durante a temporada de verão também funciona lá algum comércio, entre bares, restaurantes e até um mercado. Nessa época está tudo fechado.

O parque conta com uma boa infraestrutura e tem cabanas, hostel e camping, pra quem quiser ficar por lá. Por ser a opção mais em conta (170 pesos/noite – cerca de 20 reais), nós escolhemos acampar. Em alguns pontos do espaço destinado ao camping, existem torneiras e caixas de luz (com tomada inclusive) para utilização dos campistas. Além de nós, só mais dois casais estavam acampando.

Montamos a barraca assim que chegamos, pois já estava perto de escurecer e não confiávamos muito na nossa habilidade de fazer isso com luz, menos ainda no escuro. Mas até que fizemos um bom trabalho. Difícil foi conseguir espaço pra duas pessoas e duas mochilas, numa barraca que suportava metade disso.

Nossa barraca montada, com todas as nossas coisas do lado de fora. Foto: Júlia da Motta.

Quando saímos do banho – o banheiro público de lá era bem mais limpo que a primeira casa que ficamos – o parque já estava na mais completa escuridão. No meio da floresta, sem movimento e sem luz. Bem vindos ao meu filme de terror (fiquei com medo mesmo, admito!). Pegamos nossa comida – a massa com sardinha que sobrou do meio dia – e fomos sentar na pracinha, único lugar por perto que havia um poste de luz. Não era possível aquecer a comida, com essa ideia estávamos adaptadas. Mas ai percebemos que também não tínhamos talheres. Se você acha que comer massa fria é difícil, comer massa fria com as mãos é ainda mais. E foi assim que comemos todos os dias que ficamos por lá. A exceção foi a última noite, quando um casal brasileiro, de kombi, chegou e aqueceu água para fazermos cupnoodles. Mas aí o problema pareceu maior porque comer massa quente com as mãos é ainda mais difícil.

Fortaleza de Santa Teresa 

A Rafa se deu conta que a fortaleza só abria de quarta a domingo (chegamos no sábado de tardezinha) e por isso, depois de andar um pouco por lá, resolvemos começar por ela nosso passeio. Como no fuerte San Miguel, o fuerte Santa Teresa custa 40 pesos para entrar. Mas é muito maior e mais imponente. A vista do parque é muito linda e aquele céu vale cada peso investido.

Vista do Fuerte Santa Teresa, no Parque Nacional de Santa Teresa. Foto: Júlia da Motta.

Em algum ponto do primeiro dia um perro (cachorro em espanhol) se juntou a nós. Demos o nome de Julio, porque estávamos nomeando todos os perros com nomes de pessoas que nos deram carona, e ele foi o mais companheiro de todos. Se eu ia no banheiro, que era distante da nossa barraca, ele ia comigo e me esperava do lado de fora. Pra uma pessoa medrosa como eu, num parque escuro, era uma baita companhia. Ele nos seguiu até a fortaleza, onde não eram permitidos animais, e ficou passeando conosco lá dentro até que um guarda percebeu e foi atrás dele. Os dois ficaram correndo dentro do forte até que o Julio resolveu ir embora.

Julio e eu no fuerte Santa Teresa, antes dele ser descoberto. Foto: Me leva embora estrada afora/Rafaela Ely.

Descobrimos um restaurante na frente da fortaleza. Como estávamos longe de tudo e com pouca comida, fomos tentar comprar pão, algo que o cara não vendia lá. Mas ele foi legal e foi ver se tinha algum pacote fechado no estoque. Por sorte tinha, e ele nos vendeu. POR 105 PESOS (Equivalente a 12 fucking reais!)!!! Tive que comprar, não tinha opção porque não tínhamos comida. E o cara ainda foi legal nos vendendo pelo valor que pagou (depois descobri que esse é o preço de pão de sanduíche no mercado também, bem caro, como toda a comida no Uruguai). Pelo menos o pão serviu seu propósito, pois usamos ele em todas as refeições seguintes: com atum enlatado, com azeitonas, puro. Enfim, aprendi uma lição e valeu o investimento.

Playa De La Moza

O dia seguinte amanheceu nublado e era o que iríamos embora, mas queríamos cruzar do parque até Punta del Diablo a pé, pela praia (cerca de 9km) e precisávamos descansar. Por isso, um dia que estava planejado para dormirmos no parque acabaram virando 3, mas fomos compensadas por ficar. Um casal de golfinhos ficou brincando na água perto de onde estávamos sentadas nas pedras, lendo. Aquele lugar me lembrou muito meus verões em família e foi a primeira vez que caiu a ficha que estava longe de casa, e o coração apertou de saudade.

Playa de La Moza, local onde ficamos admirando a vista, lendo e conversando e ganhamos um show particular de golfinhos. Foto: Me leva embora estrada afora/Rafaela Ely.

Os dias em Santa Teresa foram importantes pra mim porque a solidão do lugar me permitiu fazer algo que eu vinha evitando fazer no Brasil: refletir sobre a bagunça que estava a minha vida. Acho que por medo do que poderia encontrar olhando pra dentro, vinha fingindo pra mim mesma que tudo estava bem, e não via, ou não queria ver, a verdade: que não estava feliz, e precisava mudar. Admitir isso, reavaliar como se estivesse vendo de fora, foi o primeiro passo. O medo do que vinha pela frente era grande, mas estava confiante.

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