Mochilão · Uruguai

Aquele em que nos perdemos

Na manhã prevista para ir embora do Parque Nacional de Santa Teresa, eu acordei e fui no banheiro escovar os dentes, bem tranquila, mas quase tive um treco ao me olhar no espelho. Tava cheia de pintinhas vermelhas ao redor dos olhos. Parecia uma catapora sem feridas. Fiquei apavorada. Daí fui correndo mostrar pra Rafa e ela ficou tipo “ah, não é nada, deve ser uma alergia”. Eu super achando que ia morrer (exagerada) e ela no “I don’t care”. Algo que estou tentando aprender com ela: não me apegar a coisas pequenas e ficar mal. Não devemos dar aos problemas mais valor do que eles merecem.

Quando estávamos saindo do parque, nos perdemos lá dentro (óbvio, né). Isso porque o caminho pela praia era mais rápido do que pela rota, só que entre as praias que cercavam havia uma parede de pedras, que seria impossível transpor com as mochilas. Então, precisávamos chegar por dentro do parque até a última praia para poder cruzar para Punta del Diablo. Caminhamos muito e parecia que não estávamos saindo do lugar. Perguntamos pra todas as almas que encontramos no caminho (poucas) e mesmo assim não chegávamos. Além disso, as pessoas ficavam enfatizando como era longe.

O muro de pedras entre Praia de La Moza e Praia Grande, e, ao longe, Punta del Diablo. Foto: Júlia da Motta.

No meio do caminho encontramos o refúgio silvestre, tipo um mini zoo, que ainda não havíamos visitado. Enquanto andávamos por lá me dei conta que andamos muito e ainda havia muito o que ver. O lugar era realmente enorme.

Refúgio Silvestre do Parque Nacional de Santa Teresa. Uma espécie de mini zoo do lugar. Foto: Júlia da Motta.

Depois de muita procura, caminhada e indicações, chegamos na capatacia, onde fica a coordenação do lugar e a outra saída do parque. O que encontramos lá? Um mercado. Algo que teria sido bem útil nos dias anteriores, com a comida escassa que tínhamos. Como passamos 3 dias sem internet e, por consequência, sem contato com o mundo, achamos que seria uma boa ideia comprar alguma coisa no bar para poder usar o wifi. Também queríamos ver se estávamos perto de Praia Grande e algo sobre hospedagem, pois ainda não tínhamos lugar para ficar em Punta del Diablo. Comprei um café com leite e sentamos um pouco pra descansar depois de ter andado tanto. Daí descobrimos que a internet do lugar não estava funcionando.

Perguntamos para alguns milicos como fazer e seguimos o caminho. Nessa parte o percurso ficou um pouco pior porque era uma subida, e ainda estávamos longe. Começou a nos acompanhar o calor e uma sensação de que não chegaríamos nunca. Mas aí apareceu um carro e parou perguntando onde a gente tava indo. Era o diretor do parque, Coronel Goulart. Ele se ofereceu para nos levar até a praia. Isso nos poupou uns bons quilômetros. A partir daí foi mais tranquilo (apesar do cansaço) porque era só cruzar a praia. Creio que caminhamos uns 14km no total, mas isso porque nos perdemos.

Cruzando de Praia Grande para Punta del Diablo, com a segunda já a vista. Foto: Rafaela Ely.

Caminhamos em Punta, perguntamos para todo mundo que encontramos e nada de achar algum lugar aberto ou internet. Até que no meio da rua o celular da Rafa apitou. Tinha captado sinal de um wifi liberado. Sentamos na frente de um restaurante fechado para podermos nos organizar. Não conseguimos couchsurfing, mas encontramos um hostel (que tinha apenas um quarto, uma espécie de cabana), que ficava 2km distante do centro. Mais um trecho a percorrer com as mochilas. O lugar era bem escondido, numa parte mais rural, mas enfim chegamos. Tudo era bem ecofriendly e o casal que administrava o lugar, bem bacana. A noite custou 220 pesos (algo em torno de 25 reais) e foi o mais barato que encontramos.

Nosso quarto/cabana no hostel Patas Negras, em Punta del Diablo. Cerca de 2km de distância do centro. Foto: Júlia da Motta.

Acabamos dormindo 2 dias por lá, assim conseguimos nos organizar e planejar com calma os próximos passos. E, claro, tivemos tempo para desbravar Punta. A praia é pequena e muito bonita. Parece (e é) uma pequena vila de pescadores. Fora de temporada estava com pouco movimento e boa parte dos estabelecimentos fechados. Mesmo assim, conseguimos aproveitar as belezas do lugar, desde as praias até o pôr do sol nas pedras.

Nas pedras da praia de Punta del Diablo, onde assistimos um lindo pôr do sol. Foto: Rafaela Ely.

Na manhã que completamos uma semana de viagem, partimos em direção a Valizas. Dessas coincidências que acontecem na vida, pegamos uma carona assim que chegamos na estrada, depois de sair do hostel, e o motorista nos deixou no cruzamento entre a saída de Punta del Diablo e a rota que nos levaria ao nosso próximo destino, onde encontrei um professor da Liberato, escola em Novo Hamburgo onde fiz técnico em química junto ao ensino médio. Ele não me deu aula mas o conhecia de vista, principalmente por ser um conterrâneo de Montenegro e almoçar aos domingos no restaurante do meu pai.

Com a Bela, uma perra amiga que fizemos na Playa de La Viuda, em Punta del Diablo. Foto: Rafaela Ely.

Dizem que em qualquer lugar do mundo se encontra pessoas da Liberato. Aparentemente, isso também serve para Montenegrinos. Batemos um papo com ele e seguimos nosso caminho. O engraçado, contudo, foi isso parecer para mim um sinal de que estava no caminho certo. Não tinha nenhum outro lugar onde eu deveria estar naquele momento.

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