Mochilão · Uruguai

Aquele sobre acreditar

Foram necessárias umas poucas horas no Uruguai para ter coragem de parar na estrada e pedir carona. Fiquei refletindo muito sobre o motivo de não poder fazer isso no Brasil ou, ao menos, não ter coragem de fazer. Acabei voltando para um dos meus objetivos do mochilão: voltar a acreditar nas pessoas. Uma das principais coisas que estava buscando na viagem era isso. Sempre acreditei demais e o caos dos últimos tempos me fez perder um pouco da fé que sempre tive na humanidade.

Na saída de Punta del Diablo, esperando uma carona até nosso próximo destino. Foto: Rafaela Ely.

Pegar carona, me hospedar na casa de pessoas desconhecidas, abrir minha vida para estranhos…tudo isso pede que tu espere sempre o melhor das pessoas. A parte boa é que fui surpreendida de uma meneira muito positiva. As pessoas não queriam só ajudar, elas estavam dispostas a fazer mais do que havíamos pedido porque queriam garantir que ficaríamos bem. Não porque queriam algo em troca, apenas porque era algo que pra elas não seria nada demais e para nós faria muita diferença, como andar 10km a mais com as mochilas nas costas.

Na entrada de Valizas, praia pequena do litoral uruguaio. Foto: Júlia da Motta.

Na rota, na saída de Punta del Diablo, logo fomos levantadas por um caminhoneiro brasileiro. Nossa primeira carona na boleia de um caminhão. Ele estava indo pra Montevidéu, mas nos deixou no caminho, entre Castillos e Águas Dulces/Valizas. Lá caminhamos um pouco e logo uma mulher nos levantou também. Ela entraria em Águas Dulces, mas foi até a entrada de Valizas por nossa causa. Valizas é uma praia pequena, com cerca de 280 habitantes. Ela nos disse que o lugar tinha algo de diferente. Boêmio e festeiro. Confirmamos isso com nossa estada lá. Na entrada de Valizas conseguimos mais uma carona até a casa do cara onde faríamos couchsurfing.

Rafa e eu na estrada que levava até a casa de nosso anfitrião em Valizas, antes de conseguirmos carona. Foto: Júlia da Motta.

Tirando o fato que ele sabia o horário que chegaríamos e nos deixou umas 3 horas esperando na rua, pois estava em outra cidade, ele era bacana. Responsabilidade não era o forte dele, conforme nos alertou o seu vizinho depois, mas era uma boa pessoa. Essa espera nos possibilitou conhecer esse vizinho citado, o Cubija, eleito por mim e pela Rafa como melhor pessoa do Uruguai. Eu tava sozinha quando ele apareceu, pois a Rafa tinha saído pra tentar encontrar internet e se comunicar com nosso host, e ofereceu café e tentou ligar pro cara pra avisar que a gente tava lá esperando.

Quadro da sala do nosso anfitrião, em Valizas. Foto: Júlia da Motta.

Pela noite a Rafa e eu resolvemos ir conhecer a praia. Foi a melhor ideia que tivemos, pois vimos a lua mais bonita dessa vida. Ficamos tão empolgadas com o quão grande e próxima ela estava, e a praia estava tão escura, que acabamos entrando no mar sem querer, vestidas como estávamos. Mas não molhamos mais do que os sapatos e as canelas. Quando voltamos a casa tava cheia, e os amigos do nosso anfitrião estavam tocando (eles tinham uma banda). Depois dos primeiros dias de solidão, aquela mini festa caiu bem.

O lugar onde ficamos era bem bacana e foi todo feito pelo nosso anfitrião, que nos contou que foi construindo aos poucos. Tinha uma parte de barro que ainda estava sendo construída, inclusive. Durante o verão funcionava lá um hostel. Ele também tinha casa em Montevidéu, e nos ofereceu hospedagem. No dia seguinte ele foi tocar lá com a banda, dizendo que voltava de noite, e quando fomos embora, dois dias depois, ele ainda não tinha voltado. Ou seja, ele simplesmente deixou a casa nas mãos de duas pessoas que ele tinha acabado de conhecer. Essa confiança de que as pessoas sempre vão te oferecer o melhor.

Eu e Rafa com o Cubija, que acabou virando um grande amigo. Foto: Júlia da Motta.

Enquanto isso, compartilhamos com o Cubija refeições, vinho e muitas conversas e ele ganhou nosso coração. Até fiz bolinhos de chuva pra ele conhecer, algo que nunca havia feito no Brasil. Ele abriu a sua casa para nós e tentou nos ajudar em tudo o que podia. Parecia que quanto mais eu ia aprendendo e conhecendo no caminho, mais meu coração voltava a se encher de esperança. Onde e quando passamos a enxergar o desconhecido como um possível perigo e não como um ser humano? A desilusão que eu vinha vivendo no Brasil aos poucos foi sendo substituída pela esperança de que não se pode desistir. É possível acreditar nas pessoas, é possível construir uma realidade melhor.

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